Duas claras de ovos, mais um coquetel de vitaminas e Grizzly, um schnauzer gigante de pêlo negro, está pronto para começar seu dia. Depois de alimentado, é hora de cuidar da forma física. Neste momento, quem entra em cena é seu dog sitter, Manuel dos Santos, 25 anos, que conta com o providencial apoio de uma bicicleta para correr durante uma hora com Grizzly todas as manhãs. O cão é quase uma celebridade em Moema, onde costuma circular, e Manuel garante. O bicho ficou vaidoso por conta disso. Em uma manhã, enquanto corriam por uma das ruas do bairro, o tratador quase levou um tombo quando, repentinamente, o cão parou no meio da rua. É que Grizzly quis conferir de quem era a voz que, de dentro de um salão de beleza, gritou: "Olha, que lindo".
Encontrar cachorros de diferentes raças pelas ruas de Moema, Itaim Bibi e Vila Nova Conceição é algo bastante comum. O que para alguns é um privilégio, por serem apaixonados por animais, para outros é um pesadelo. Principalmente quando têm a má sorte de pisar em lembranças nada agradáveis que os bichos deixam aqui e ali nas calçadas. Culpar os animais é injusto. Afinal, em algum local eles precisam fazer coco. Cabe aos donos a responsabilidade de garantir a boa convivência entre seu cão e a vizinhança. Para isso, a regra básica é carregar saquinhos e recolher o que ninguém ficará feliz de encontrar no caminho. Afora isso, o que também ninguém deseja é topar com um cachorro mal educado. E, pior ainda, com um cachorro violento.
Para garantir que Grizzly percorra o bairro sem provocar dores de cabeça a ninguém, seu dono, Juliano Hannud, começou a adestrá-lo ainda filhote. Obediente, o cão tornou-se um ótimo companheiro, tanto que passa a maior parte do dia no escritório de Hannud, na loja do Emporium São Paulo da avenida Jurema, em Moema. Apesar do tamanho, quem encontra o cão pelo caminho não sente medo, pois logo percebe que o animal é manso. Não por acaso. Uma das características desta raça é a tranquilidade.
Não se sabe exatamente qual é a população canina do município de São Paulo. Porém, uma pesquisa de mestrado realizada pela médica veterinária Noêmia Paranhos, do Centro de Controle de Zoonoses da prefeitura, estimou a existência de 1 cão para cada 7 habitantes. Assim, haveria cerca de 2 milhões de cachorros na cidade. Se pensarmos apenas na população de Moema, a estimativa será equivalente a 10.000 cães.
Não é à toa que a oferta de serviços específicos para cães domésticos, como o de passeadores - ou dog walkers -, tem crescido. Segundo a médica veterinária Elisabete da Silva, também do Centro de Zoonoses, não existe regulamentação específica para controlar a qualidade desse tipo de serviço. Apenas as clínicas veterinárias seguem uma regulamentação fiscalizada pela vigilância sanitária. "Passear com o cão é recomendável e saudável", afirma Elisabete. "Mas a rua esconde perigos para a saúde e segurança do animal. Por isso, é preciso que ele esteja com alguém responsável."
Há cinco anos realizando este tipo de atividades em São Paulo, Raquel Hama, gerente da empresa de passeios e adestramento de cães Dogwalker, confirma que a atividade de passeios não é regulamentada. Daí a importância de contratar profissionais que realmente entendam de psicologia e comportamento canino e que não cometeriam erros como soltar a guia do cão ou deixa-lo ter contato com fezes de outros animais. Raquel cita o exemplo de uma daschhund, a raça mais conhecida como salsicha, que começou a freqüentar a empresa. Um passeador deixou a cadelinha escapar da guia e ela foi atropelada. "Agora, ela está traumatizada, fazendo tratamento homeopático e não quer sair na rua", conta.
Outro mau exemplo lembrado por Raquel foi o de uma passeadora que encontrou levando dez cães, de diferentes portes, de uma só vez. Em um certo momento, a cachorrada se estranhou e começou a brigar. Foi uma mordeção geral. Depois de separá-los, só restou à passeadora limpar o sangue dos animais, um a um.
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